Vape faz mal para os dentes? Efeitos do cigarro eletrônico

O cigarro eletrônico, popularmente chamado de vape, pod ou “pen”, ganhou espaço principalmente entre adolescentes e adultos jovens. Com sabores doces, design moderno e a fama de ser “menos nocivo” que o cigarro tradicional, muita gente acredita que o vapor não traz grandes prejuízos. Mas será que isso é verdade quando falamos da boca?

Os números mostram porque o assunto é urgente: segundo o Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), 8,7% dos adolescentes de 14 a 17 anos usaram vape no último ano no Brasil, índice cinco vezes maior que o do cigarro convencional nessa faixa etária (Agência Brasil, 2025). E a cavidade bucal é a primeira região do corpo a receber, a cada tragada, o vapor aquecido, a nicotina e os aromatizantes.

Neste artigo, com base em revisões sistemáticas e metanálises recentes, você vai entender porque o vape faz mal para os dentes, para a gengiva e para a mucosa bucal, qual é a relação entre o cigarro eletrônico e o câncer de boca e quais sinais indicam que é hora de procurar um especialista.

O que tem dentro de um cigarro eletrônico?

O cigarro eletrônico é um dispositivo que aquece um líquido (conhecido como e-liquid ou juice) até transformá-lo em aerossol, o “vapor” que é inalado. Esse líquido normalmente contém:

  • Propilenoglicol e glicerina vegetal: substâncias viscosas que formam o vapor e carregam os sabores;
  • Nicotina: presente na grande maioria dos dispositivos, muitas vezes em concentrações elevadas (sais de nicotina);
  • Aromatizantes: responsáveis pelos sabores de frutas, doces, menta e sobremesas;
  • Outras substâncias: que, ao serem aquecidas, podem gerar compostos tóxicos, metais e partículas finas.

Vale lembrar que, no Brasil, a fabricação, a importação, a comercialização e a propaganda de cigarros eletrônicos são proibidas pela Anvisa desde 2009, proibição reforçada pela RDC nº 855/2024 (Anvisa). Ou seja, os produtos em circulação não passam por nenhum controle sanitário sobre sua composição.

Vape faz mal para os dentes? Os principais efeitos na cavidade bucal

Sim. A literatura científica aponta que o uso do cigarro eletrônico está associado a diversas alterações na cavidade bucal. As mais comuns são:

  • Cáries, especialmente com o uso de líquidos com sabores doces;
  • Doenças na gengiva, como gengivite e periodontite;
  • Alterações na cor dos dentes (manchas amareladas ou acastanhadas);
  • Lesões na mucosa bucal e irritações na boca e garganta;
  • Boca seca e mau hálito;
  • Aumento do risco de câncer bucal.

A seguir, explicamos por que cada uma dessas alterações acontece.

Por que o cigarro eletrônico aumenta o risco de cárie?

Os cigarros eletrônicos, em especial os que têm sabores doces, têm sobre os dentes o mesmo efeito dos alimentos doces e das bebidas ácidas. Isso acontece porque os líquidos viscosos que vaporizam os sabores desses dispositivos apresentam propriedades físico-químicas semelhantes às da sacarose (o açúcar comum).

Na prática, esse vapor estimula o acúmulo, na superfície dos dentes, de um tipo de placa bacteriana (biofilme) que desmineraliza o esmalte dentário, dando início à doença cárie. Um estudo publicado na revista PLoS One demonstrou justamente o potencial cariogênico (capacidade de causar cárie) dos sabores doces presentes nos líquidos de cigarros eletrônicos.

Como o uso do vape costuma ser frequente ao longo do dia, os dentes ficam expostos a esse efeito por muito mais tempo do que ficariam após uma refeição, por exemplo.

Vape faz mal para a gengiva? Entenda a relação com gengivite e periodontite

Os cigarros eletrônicos promovem uma disbiose oral, que nada mais é do que uma desorganização da flora bacteriana que compõe a microbiota da cavidade bucal. Com isso, diminui o crescimento das bactérias saudáveis, chamadas de comensais, e aumenta o das bactérias responsáveis por diversas desordens na boca, incluindo as que causam gengivite (inflamação da gengiva) e periodontite (inflamação que atinge os tecidos de sustentação dos dentes e o osso ao redor deles).

Isso acontece porque o vapor reduz significativamente a capacidade antioxidante da saliva, uma função protetora que combate os radicais livres e evita que as células da cavidade bucal passem por um processo de estresse oxidativo.

Há ainda um ponto de atenção: a nicotina provoca vasoconstrição (estreitamento dos vasos sanguíneos), o que diminui a irrigação da gengiva e pode mascarar o sangramento, um dos principais sinais de alerta da doença periodontal. Assim, a gengiva pode estar doente sem “dar sinais” evidentes, e o problema avança silenciosamente até causar retração gengival, mobilidade e perda dos dentes.

Cigarro eletrônico mancha os dentes?

Sim. A nicotina, os corantes e os aditivos presentes nos líquidos se depositam na superfície do esmalte e podem causar manchas amareladas ou acastanhadas nos dentes. Além da questão estética, essas manchas facilitam o acúmulo de placa bacteriana. Se você tem dúvidas sobre como tratar a cor dos dentes com segurança, confira nosso conteúdo sobre clareamento dental: mitos e verdades.

Boca seca, mau hálito e lesões na mucosa

O uso contínuo do vape altera a composição e o pH da saliva e pode reduzir sua produção, causando xerostomia (sensação de boca seca). Sem a proteção natural da saliva, aumentam o risco de cáries, de infecções oportunistas, como a candidíase (“sapinho”), e de mau hálito.

Além disso, o aerossol aquecido pode provocar irritações e lesões na mucosa das bochechas, da língua, do palato (céu da boca) e da garganta. Estudos sobre os mecanismos de dano celular mostram que o vapor agride as células epiteliais que revestem a cavidade bucal. Conheça também outras causas de boca seca.

Cigarro eletrônico pode causar câncer de boca?

O cigarro eletrônico aumenta o risco de câncer bucal por diferentes mecanismos:

  1. Substâncias carcinogênicas: o líquido, ao ser aquecido, gera substâncias tóxicas que são carcinogênicas (capazes de provocar câncer) para as células humanas;
  2. Nitrosaminas: a nicotina administrada durante o uso do dispositivo é metabolizada em nitrosaminas, compostos químicos causadores de câncer e amplamente detectados na saliva dos usuários de vapes;
  3. Estresse oxidativo e dano ao DNA: está comprovado que o vapor do dispositivo produz estresse oxidativo nas células, causando danos ao DNA e inflamações em seu interior, alterações que podem levar ao desenvolvimento de lesões pré-malignas e malignas.

Por isso, qualquer ferida, mancha ou alteração persistente na boca de quem usa vape deve ser avaliada por um profissional. Em muitos casos, o diagnóstico definitivo só é possível por meio de uma biópsia bucal. Saiba mais sobre as patologias bucais cancerígenas e sobre o câncer labial.

Vape ou cigarro: o que faz mais mal para a boca?

Essa é uma das dúvidas mais frequentes. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2023 na revista Clinical Oral Investigations comparou a saúde periodontal de fumantes, usuários de cigarro eletrônico e não fumantes e identificou um gradiente de risco:

  • Não fumantes: menor risco;
  • Usuários de cigarro eletrônico: risco moderado;
  • Fumantes de cigarro tradicional: risco severo.

Ou seja, os estudos indicam que o cigarro eletrônico é menos prejudicial à cavidade bucal quando comparado ao cigarro tradicional, mas isso não significa que ele seja seguro. O usuário de vape continua exposto a um risco de cáries, doenças periodontais, lesões na mucosa e câncer bucal significativamente maior do que quem não usa nenhum dos dois.

Alguns estudos avaliam o cigarro eletrônico como uma alternativa de curto prazo para fumantes em fase de transição rumo ao abandono completo do hábito de fumar. No entanto, essa estratégia não é aprovada no Brasil e só deve ser discutida com acompanhamento profissional. O objetivo final deve ser sempre a interrupção total do uso de qualquer produto com nicotina.

Sinais de alerta na boca de quem usa vape

Se você usa ou já usou cigarro eletrônico, fique atento aos seguintes sinais e procure avaliação odontológica:

  • Feridas na boca que não cicatrizam em até 15 dias;
  • Manchas brancas, vermelhas ou escuras na língua, gengiva, bochechas ou lábios;
  • Gengiva inchada, avermelhada, retraída ou que sangra ao escovar;
  • Sensibilidade nos dentes ou dentes “amolecidos” (com mobilidade);
  • Boca seca constante e mau hálito persistente;
  • Manchas ou escurecimento dos dentes;
  • Ardência, dor ou dificuldade para mastigar e engolir.

Quanto mais cedo essas alterações são diagnosticadas, mais simples e resolutivo tende a ser o tratamento.

Como proteger a saúde bucal se você usa vape?

A medida mais eficaz é interromper o uso do cigarro eletrônico. Enquanto isso não acontece, alguns cuidados ajudam a reduzir os danos:

  • Busque ajuda para parar: o SUS oferece tratamento gratuito para a dependência de nicotina. Informe-se na Unidade Básica de Saúde mais próxima ou pelo Disque Saúde 136;
  • Mantenha consultas odontológicas regulares: o acompanhamento permite prevenir ou identificar precocemente cáries, doenças gengivais e lesões na mucosa;
  • Capriche na higiene bucal: escovação após as refeições, uso diário do fio dental e limpeza da língua;
  • Beba água ao longo do dia: ajuda a manter a boca hidratada e a compensar a redução da saliva;
  • Evite os líquidos com sabores doces: eles estão diretamente relacionados a um maior potencial de cárie;
  • Informe o uso ao seu dentista: especialmente antes de cirurgias na cavidade bucal, tais como, extração de sisos, implantes dentários e enxertos, já que a nicotina prejudica a cicatrização.

Considerações finais

O vape faz mal para os dentes e para toda a cavidade bucal. Mesmo sendo considerado menos agressivo que o cigarro tradicional, o cigarro eletrônico aumenta o risco de cáries, gengivite e periodontite, manchas nos dentes, lesões na mucosa e câncer bucal, e muitas dessas alterações evoluem de forma silenciosa.

Por isso, informar-se, observar os sinais de alerta e manter o acompanhamento com um profissional de confiança é fundamental para preservar a saúde da boca e prevenir complicações mais graves.

A Clínica Juliana Búrigo atua com diagnóstico preciso e assistência integral, da avaliação de lesões bucais ao tratamento de casos de média e alta complexidade, sempre com ética, segurança e transparência. Ficou com alguma dúvida ou percebeu alguma alteração na sua boca? Agende sua consulta: www.julianaburigo.com.br.

 

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FAQ – Perguntas frequentes sobre vape e saúde bucal

Vape sem nicotina faz mal para os dentes?

Sim. Mesmo sem nicotina, o líquido contém propilenoglicol, glicerina e aromatizantes que, aquecidos, favorecem o acúmulo de placa bacteriana, a cárie (principalmente nos sabores doces) e o ressecamento da boca. A ausência de nicotina reduz alguns riscos, mas não torna o vape inofensivo.

Quanto tempo leva para o vape afetar a boca?

Não há um tempo exato, pois depende da frequência de uso, do tipo de líquido e dos cuidados de higiene. Alterações na saliva e na microbiota bucal já são observadas em usuários regulares, e problemas como cáries e inflamação da gengiva podem surgir em meses. Por isso, o acompanhamento odontológico periódico é tão importante.

Cigarro eletrônico causa mau hálito?

Sim. A redução da saliva (boca seca), o acúmulo de placa bacteriana e o desequilíbrio da flora bacteriana da boca favorecem o mau hálito (halitose) em usuários de vape.

Parar de usar vape reverte os danos na boca?

Parar de usar o cigarro eletrônico é o passo mais importante para interromper a progressão dos danos. A saliva e a microbiota bucal tendem a se reequilibrar com o tempo, e a gengiva responde melhor ao tratamento. No entanto, alterações já instaladas, como cáries, perda óssea ou lesões na mucosa, precisam de avaliação e tratamento profissional.

Quem usa vape pode fazer implante dentário ou cirurgia na boca?

O uso de nicotina, seja pelo cigarro tradicional ou pelo eletrônico, diminui a irrigação sanguínea e pode prejudicar a cicatrização das mucosas. Por isso, é essencial informar o uso ao cirurgião, que vai orientar em relação à interrupção do hábito antes e depois do procedimento e avaliar cada caso individualmente.

O cigarro eletrônico é permitido no Brasil?

Não. A Anvisa proíbe a fabricação, a importação, a comercialização, a distribuição, o armazenamento, o transporte e a propaganda de dispositivos eletrônicos para fumar em todo o território nacional (RDC nº 855/2024). Também é proibido usá-los em ambientes coletivos fechados, públicos ou privados.

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Fontes:

  1. Thiem DGE et al. The impact of electronic and conventional cigarettes on periodontal health – a systematic review and meta-analysis. Clin Oral Investig. 2023 Sep;27(9):4911-4928. doi: 10.1007/s00784-023-05162-4.
  2. Kim SA et al. Cariogenic potential of sweet flavors in electronic-cigarette liquids. PLoS One. 2018 Sep 7;13(9):e0203717. doi: 10.1371/journal.pone.0203717.
  3. Effects of Vape Use on Oral Health: A Review of the Literature. Medicina (Kaunas). 2024 Feb 21;60(3):365. doi: 10.3390/medicina60030365.
  4. Effects of Electronic Cigarettes on Periodontal Health: A Systematic Review and Meta-Analysis. Int Dent J. 2025 Jun;75(3):2014-2024. doi: 10.1016/j.identj.2024.12.036.
  5. Mechanisms of E-Cigarette Vape-Induced Epithelial Cell Damage. Cells. 2023 Oct 31;12(21):2552. doi: 10.3390/cells12212552.
  6. An Umbrella Review of E-Cigarettes’ Impact on Oral Microbiota and Biofilm Buildup. Pathogens. 2025 Jun 10;14(6):578. doi: 10.3390/pathogens14060578.
  7. Agência Brasil. Um em cada 9 adolescentes usa cigarro eletrônico no Brasil (LENAD III), jun/2025.
  8. Anvisa. Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 855, de 23 de abril de 2024.

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