Energético faz mal para os dentes? Entenda o efeito das bebidas ácidas na boca

Estudar para uma prova, encarar um plantão, treinar pesado na academia ou simplesmente vencer o cansaço do fim da tarde: os energéticos entraram na rotina de muita gente, principalmente entre adolescentes, universitários e praticantes de atividade física.

O que quase ninguém comenta é o que acontece dentro da boca a cada gole. Essas bebidas são extremamente ácidas e, na maioria das vezes, cheias de açúcar, uma combinação que ataca o esmalte dos dentes de duas formas ao mesmo tempo.

Neste artigo, você vai entender por que o energético faz mal para os dentes, o que é a erosão dentária, quais sinais indicam que o esmalte já está sendo desgastado e o que fazer para reduzir os danos.

 

Por que os energéticos são tão agressivos para os dentes?

Para entender o problema, é preciso falar de pH, a escala que mede o quanto uma substância é ácida. O pH de uma cavidade bucal em estado de saúde deve estar em um mínimo de 5,5. Abaixo disso, começa a desmineralização dos tecidos dentários, ou seja, a perda dos minerais que dão dureza ao dente.

Entre as cinco marcas de energéticos mais conhecidas e vendidas no mundo, o pH fica entre 2,72 e 3,37. São bebidas extremamente ácidas, em uma faixa bem mais baixa do que o esmalte suporta. Veja os números:

Marca pH da bebida Açúcar livre por 100 ml
Lucozade 2,72 16,5 g
Rockstar 2,86 13,83 g
Relentless 2,94 10,83 g
Red Bull 3,08 11 g
Monster 3,37 12,17 g

Fonte dos dados: Clapp O, Morgan MZ, Fairchild RM. The top five selling UK energy drinks: implications for dental and general health. Br Dent J. 2019.

Ou seja, o consumo dessas bebidas mantém a cavidade bucal em um pH ácido constante, desencadeando o processo de desmineralização dos tecidos dentários: esmalte, dentina e cemento.

 

O que é erosão dentária e por que ela é irreversível?

A erosão dentária é a perda progressiva da estrutura do dente pelo contato frequente com ácidos, sem envolvimento das bactérias. Diferente da cárie, que costuma formar uma cavidade localizada, a erosão desgasta áreas amplas da superfície do dente.

Com o tempo, os dentes perdem volume em todas as suas dimensões: altura, largura e espessura. E aqui está o ponto mais importante: o esmalte não se regenera. Uma vez perdido, ele não volta, e a recuperação da forma e da função do dente passa a depender de tratamento restaurador.

 

Por que os energéticos favorecem o aparecimento da cárie?

Além de ácidos, os energéticos são ricos em açúcar livre, de 25,5 até 69,2 gramas por embalagem, dependendo da marca e do tamanho. Esse açúcar favorece a formação da placa bacteriana, que é a causadora da doença cárie.

O resultado é uma soma perigosa: o ácido produzido pela placa bacteriana, que normalmente levaria certo tempo para desmineralizar o esmalte e iniciar a cárie, encontra um ambiente bucal já ácido e um esmalte já desmineralizado. Isso acelera todo o processo de desenvolvimento da doença, que evolui bem mais rápido do que aconteceria naturalmente.

Vale lembrar que cáries não tratadas podem evoluir para infecções dentárias e para a necessidade de tratamento de canal ou até extração.

 

Quais outras consequências os energéticos causam na boca?

Além da erosão e da cárie, o consumo frequente dessas bebidas está associado a:

  • Amarelamento e escurecimento dos dentes, por causa dos corantes e da cafeína presentes em grande quantidade na composição;
  • Manchas e corrosão nas restaurações: um estudo publicado no BMC Oral Health mostrou que a imersão repetida em bebidas energéticas e esportivas altera a superfície e a cor dos materiais restauradores, o que compromete resinas, facetas e outros trabalhos estéticos;
  • Sensibilidade dentária, que aparece com mais frequência porque a camada de proteção do dente vai embora em um ambiente ácido, deixando-o mais vulnerável a diferentes temperaturas, sabores e texturas;
  • Boca seca e mau hálito, favorecidos pela cafeína e pela desidratação. Entenda melhor as causas do mau hálito;
  • Dentes mais frágeis, com maior risco de trincas e fraturas nas bordas. Veja o que fazer em caso de dente quebrado.

Se o incômodo maior for a cor dos dentes, vale entender antes o que é possível (e o que não é) no clareamento dental, já que o clareamento não resolve o desgaste do esmalte.

 

Escovo os dentes corretamente. Mesmo assim o energético prejudica?

Sim, e esse é um dos pontos que mais surpreende os pacientes. A escovação diária correta elimina as bactérias que causam a cárie e as doenças gengival e periodontal, mas não impede a ação do ácido.

Isso acontece porque, com o consumo frequente de bebidas ácidas, o pH da boca não consegue se manter no mínimo saudável de 5,5: a saliva não dá conta de fazer a sua função fisiológica de tamponamento, que é elevar e manter o pH em níveis seguros. Enquanto o ambiente permanecer ácido, o desgaste continua, mesmo com a melhor higiene bucal.

Um detalhe importante: escovar os dentes logo depois de tomar um energético piora o quadro, porque o esmalte amolecido pelo ácido é removido com mais facilidade pela escova.

 

Sinais de que o esmalte já está sendo desgastado

Fique atento a estes sinais e procure avaliação odontológica:

  • Sensibilidade ao frio, ao quente, ao doce ou ao ácido;
  • Dentes mais amarelados, porque o esmalte fica mais fino e deixa a dentina aparecer;
  • Bordas dos dentes da frente translúcidas, lascadas ou irregulares;
  • Dentes que parecem menores ou mais curtos do que antes;
  • Restaurações que parecem “altas” ou salientes, sinal de que o dente ao redor delas se desgastou;
  • Superfícies lisas e brilhantes ou pequenas depressões nas faces dos dentes;
  • Manchas e escurecimento que não saem com a escovação.

 

Energético zero açúcar faz mal para os dentes?

A versão sem açúcar elimina uma parte do problema, a que está ligada à cárie, mas não elimina a acidez. Como a erosão é causada pelo baixo pH da bebida, e não pelo açúcar, o desgaste do esmalte continua acontecendo. O mesmo vale para refrigerantes zero, isotônicos e águas saborizadas ácidas.

 

Atletas e praticantes de atividade física: atenção redobrada

Quem treina costuma consumir energéticos e isotônicos durante o esforço físico, justamente quando a boca está mais seca e o fluxo de saliva reduzido, o que diminui ainda mais a proteção natural dos dentes. Revisões sistemáticas recentes confirmam o potencial erosivo dessas bebidas nos dentes de atletas, e estudos com jogadores profissionais mostram alta prevalência de problemas bucais nesse público.

Por isso, em treinos e competições, a água segue sendo a melhor escolha na maior parte do tempo, com as bebidas específicas usadas de forma pontual e orientada.

 

Como reduzir os danos dos energéticos nos dentes?

O ideal é reduzir ao máximo o consumo. Quando ele acontecer, algumas atitudes ajudam a proteger os dentes:

  1. Evite beber aos poucos ao longo do dia. Tomar a bebida de uma vez expõe os dentes ao ácido por menos tempo do que ficar “beliscando” goles durante horas;
  2. Use canudo, para reduzir o contato do líquido com a superfície dos dentes da frente;
  3. Bocheche água pura logo depois, para ajudar a neutralizar o ambiente ácido;
  4. Espere pelo menos 30 minutos para escovar os dentes, dando tempo para a saliva reequilibrar o pH e o esmalte se remineralizar;
  5. Evite o consumo antes de dormir, período em que a produção de saliva cai bastante;
  6. Use creme dental com flúor e converse com o seu dentista sobre produtos para sensibilidade e remineralização. Entenda também o papel do enxaguatório bucal;
  7. Mantenha as consultas de rotina, para que o desgaste seja identificado no início.

 

Como tratar os dentes já desgastados?

Quando a erosão já aconteceu, o tratamento depende da extensão da perda. Casos iniciais podem ser acompanhados com medidas preventivas, aplicação de flúor e controle do consumo. Já os casos com perda significativa de estrutura, alteração da mordida ou comprometimento estético exigem reabilitação bucal, com restaurações, facetas, lentes, onlays e inlays, sempre a partir de um diagnóstico preciso. Conheça os tipos de tratamento para a recuperação do sorriso.

 

Considerações finais

Energético faz mal para os dentes, sim. Com pH entre 2,72 e 3,37 e altas concentrações de açúcar, essas bebidas mantêm a boca em um ambiente ácido constante, provocando erosão dentária, acelerando a cárie e causando manchas, escurecimento e sensibilidade. E, como o esmalte não se regenera, o dano é cumulativo.

Reduzir o consumo, adotar os cuidados certos e manter o acompanhamento odontológico é o caminho para preservar os dentes naturais, que devem sempre ser mantidos enquanto for possível.

A Clínica Juliana Búrigo avalia o grau de desgaste, identifica a causa e propõe o tratamento mais adequado para cada caso, com ética, segurança e transparência. Percebeu sensibilidade ou mudança na aparência dos seus dentes? Agende sua consulta: www.julianaburigo.com.br.

 

_______________________________________________________________________

 

FAQ – Perguntas frequentes sobre energéticos e saúde bucal

Quantos energéticos por semana já fazem mal aos dentes?

Não existe um número seguro definido, porque o dano depende mais da frequência e da forma de consumo do que da quantidade total. Beber devagar, em goles ao longo do dia, é mais prejudicial do que consumir a mesma quantidade de uma vez, porque mantém a boca ácida por mais tempo.

O esmalte desgastado pelo energético volta a crescer?

Não. O esmalte não se regenera. Em desgastes muito iniciais, é possível remineralizar a superfície com flúor e outros produtos indicados pelo dentista, mas a estrutura já perdida só é recuperada com tratamento restaurador.

Energético mancha os dentes?

Sim. Os corantes e a cafeína presentes na composição provocam amarelamento, escurecimento e manchas nos dentes e também nas restaurações. Como o esmalte fica mais áspero e poroso com a acidez, as manchas se fixam com mais facilidade.

Posso escovar os dentes logo depois de tomar energético?

Não é o ideal. Logo após o consumo, o esmalte está amolecido pelo ácido, e a escovação imediata acelera o desgaste. O recomendado é bochechar água e esperar pelo menos 30 minutos para escovar.

Energético é pior que refrigerante para os dentes?

Os dois são ácidos e prejudiciais. O que costuma agravar o caso dos energéticos é a combinação de pH muito baixo, alta concentração de açúcar, cafeína e corantes, somada ao hábito de consumo em situações de boca seca, como durante treinos, estudos e jornadas longas.

Tomar energético com canudo protege os dentes?

Ajuda, mas não resolve. O canudo reduz o contato direto do líquido com os dentes da frente, porém a bebida continua alterando o pH de toda a cavidade bucal. Ele é uma medida complementar, não uma proteção completa.

——————————————————————————————

Fontes:

  1. Clapp O, Morgan MZ, Fairchild RM. The top five selling UK energy drinks: implications for dental and general health. Br Dent J. 2019 Apr;226(7):493-497. doi: 10.1038/s41415-019-0114-0.
  2. Tanthanuch S et al. In vitro surface and color changes of tooth-colored restorative materials after sport and energy drink cyclic immersions. BMC Oral Health. 2022 Dec 9;22(1):578. doi: 10.1186/s12903-022-02624-1.
  3. Angelillo S et al. Oral Health and Oral Health-Related Quality of Life in Professional Soccer Players in Southern Italy: A Cross-Sectional Study. Oral Health Prev Dent. 2025;23:107-114. doi: 10.3290/j.ohpd.c_1859.
  4. Luo BW et al. Association Between Consumption of Energy and Sports Drinks with Oral Health: A Systematic Review. Dent J (Basel). 2026 Jun 10;14(6):359. doi: 10.3390/dj14060359.
  5. Gálvez-Bravo F et al. Erosive Potential of Sports, Energy Drinks, and Isotonic Solutions on Athletes’ Teeth: A Systematic Review. Nutrients. 2025 Jan 23;17(3):403. doi: 10.3390/nu17030403.

Add a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


*